O câncer de laringe é um tumor maligno que se desenvolve nos tecidos da laringe, o órgão responsável pela produção da voz e pela proteção das vias aéreas inferiores durante a deglutição. É um dos cânceres de cabeça e pescoço mais frequentes, acometendo principalmente homens entre 50 e 70 anos de idade. Com diagnóstico precoce, as taxas de cura podem superar 90% nas formas localizadas.
O Que é o Câncer de Laringe?
A laringe é uma estrutura cartilaginosa localizada no pescoço, entre a faringe e a traqueia. Ela é dividida em três regiões anatômicas: supraglote (acima das pregas vocais), glote (pregas vocais propriamente ditas) e subglote (abaixo das pregas vocais). Essa divisão é fundamental porque cada região tem comportamento biológico, sintomatologia e prognóstico distintos.
A maioria dos cânceres de laringe — cerca de 95% — é do tipo carcinoma de células escamosas (ou espinocelular), que se origina nas células que revestem a mucosa laríngea. Outros tipos histológicos, como adenocarcinoma e carcinoma neuroendócrino, são raros.
3 Principais Fatores de Risco
O desenvolvimento do câncer de laringe está fortemente associado a hábitos de vida e exposições ambientais. Os fatores de risco mais importantes incluem:
- Tabagismo: o tabaco é, de longe, o principal fator de risco. Fumantes têm um risco 5 a 35 vezes maior de desenvolver câncer de laringe em comparação a não fumantes. O risco aumenta com a quantidade de cigarros e o tempo de tabagismo.
- Consumo excessivo de álcool: o álcool potencializa os efeitos carcinogênicos do tabaco. A combinação de tabagismo e etilismo eleva o risco de forma sinérgica — muito mais do que cada fator isolado.
- Exposição ocupacional: trabalhadores que lidam com amianto, poeiras de madeira, tinta e solventes têm maior risco de câncer de laringe.
Outros fatores incluem infecção pelo vírus HPV (especialmente os subtipos 16 e 18), doença de refluxo gastroesofágico crônico, desnutrição e histórico familiar de cânceres de vias aerodigestivas superiores.
Sintomas do Câncer de Laringe
Os sintomas do câncer de laringe variam de acordo com a localização do tumor. Conhecer os sinais de alerta é fundamental para o diagnóstico precoce:
Câncer de Laringe Glótico (Pregas Vocais)
O câncer glótico é o mais comum e, felizmente, o de melhor prognóstico — justamente porque a disfonia (alteração da voz) aparece muito cedo, mesmo em estágios iniciais. Por isso, qualquer rouquidão que persiste por mais de 3 semanas em fumante ou ex-fumante deve ser investigada imediatamente pelo otorrinolaringologista ou oncologista.
Câncer de Laringe Supraglótico
O câncer supraglótico costuma ser diagnosticado em estágios mais avançados, pois os sintomas iniciais são mais inespecíficos: sensação de corpo estranho na garganta, disfagia (dificuldade para engolir), odinofagia (dor ao engolir) e dor de garganta persistente. A rouquidão surge mais tarde, quando o tumor se estende para as pregas vocais.
Sintomas Gerais
Em estágios avançados, o câncer de laringe pode causar dispneia (falta de ar) progressiva, estridor (ruído respiratório), hemoptise (sangue na expectoração), perda de peso significativa e linfonodos (ínguas) palpáveis no pescoço.
Como é Feito o Diagnóstico?
O diagnóstico do câncer de laringe envolve uma série de etapas clínicas e complementares:
Laringoscopia
A laringoscopia indireta (com espelho) ou direta (com endoscópio flexível) é o primeiro exame realizado. Ela permite a visualização direta das estruturas laríngeas e a identificação de lesões suspeitas. A laringoscopia com luz NBI (Narrow Band Imaging) melhora a identificação de padrões vasculares anormais associados à malignidade.
Biópsia
O diagnóstico definitivo é estabelecido pela análise anatomopatológica de fragmentos obtidos por biópsia direta sob anestesia geral (microlaringoscopia de suspensão). O exame histológico confirma o tipo celular e o grau de diferenciação do tumor.
Exames de Imagem
A tomografia computadorizada do pescoço com contraste é o exame de imagem de escolha para avaliar a extensão local do tumor, o comprometimento das cartilagens laríngeas, o envolvimento de estruturas adjacentes e o status dos linfonodos cervicais. A ressonância magnética oferece informações adicionais sobre o envolvimento de partes moles. A PET-CT é utilizada em casos selecionados para avaliar metástases a distância. Para entender melhor como o estágio do câncer influencia o tratamento, leia sobre o estadiamento do câncer.
Estadiamento do Câncer de Laringe
O estadiamento do câncer de laringe segue o sistema TNM da AJCC (American Joint Committee on Cancer). O estágio varia de I (tumor localizado, mobilidade das pregas vocais preservada) a IV (tumor com invasão de estruturas adjacentes, metástase linfonodal bulky ou metástase a distância). O estadiamento preciso é essencial para definir a melhor estratégia terapêutica.
Tratamento do Câncer de Laringe
O tratamento do câncer de laringe evoluiu significativamente nas últimas décadas, com foco crescente na preservação da laringe e da qualidade de vida do paciente. As principais modalidades terapêuticas incluem:
Cirurgia
Para tumores glóticos em estágio inicial (T1-T2), a microcirurgia endoscópica com laser CO2 é frequentemente a primeira escolha. Permite a remoção precisa do tumor com preservação das pregas vocais e excelentes resultados oncológicos e funcionais. Para tumores mais extensos, pode ser necessária laringectomia parcial ou total.
A laringectomia total, embora resulte em perda permanente da voz natural, está indicada em tumores avançados que não respondem à radioterapia ou em casos de recidiva. Após a laringectomia, o paciente pode reaprender a comunicar-se através de voz esofágica, prótese traqueoesofágica ou laringe eletrônica.
Radioterapia
A radioterapia é a principal alternativa à cirurgia para tumores glóticos em estágio inicial, com taxas de controle local semelhantes à cirurgia endoscópica e excelente preservação vocal. Para tumores avançados, a radioterapia pode ser combinada com quimioterapia (radioquimioterapia) como estratégia de preservação laríngea.
Quimioterapia
A quimioterapia com platina (cisplatina) é utilizada de forma concomitante à radioterapia em tumores avançados como parte dos protocolos de preservação laríngea ou como tratamento paliativo em doença metastática. O uso de quimioterapia de indução (antes da radioquimioterapia definitiva) é avaliado em casos selecionados de tumores muito volumosos para determinar a sensibilidade tumoral à quimioterapia.
Imunoterapia
Os inibidores de checkpoint imunológico, especialmente o pembrolizumab e o nivolumab, demonstraram eficácia no câncer de cabeça e pescoço recorrente/metastático, incluindo o câncer de laringe. Esses agentes de imunoterapia representam uma nova opção para pacientes que não respondem à quimioterapia convencional. Saiba mais sobre como funciona a terapia alvo no câncer.
Reabilitação e Qualidade de Vida
A reabilitação após o tratamento do câncer de laringe é um componente essencial da abordagem oncológica multidisciplinar. A fonoaudiologia tem papel fundamental na recuperação vocal e na reabilitação da deglutição, especialmente após cirurgias parciais. Pacientes submetidos à laringectomia total necessitam de suporte especializado para aprender novas formas de comunicação.
A nutrição adequada, o suporte psicológico e o acompanhamento com oncologista, cirurgião de cabeça e pescoço, fonoaudiólogo e nutricionista formam a base da abordagem integral ao paciente com câncer de laringe. Para saber mais sobre os cuidados durante o tratamento, consulte as diretrizes do INCA sobre câncer de laringe.
Prevenção do Câncer de Laringe
A cessação do tabagismo e a redução do consumo de álcool são as medidas preventivas mais eficazes contra o câncer de laringe. Estima-se que mais de 80% dos casos de câncer de laringe poderiam ser evitados com a eliminação desses dois fatores de risco modificáveis. Leia mais sobre a prevenção do câncer e hábitos que reduzem o risco.
Conclusão
O câncer de laringe, quando diagnosticado nos estágios iniciais, tem excelente prognóstico e pode ser tratado de forma eficaz com preservação da voz e da qualidade de vida. A chave está no diagnóstico precoce — qualquer alteração vocal persistente em fumante ou ex-fumante deve ser investigada sem demora. Se você apresenta rouquidão persistente, dificuldade para engolir ou outros sintomas laríngeos, consulte um médico oncologista especializado para avaliação.