Cardiotoxicidade da Quimioterapia: 4 Mecanismos, Sintomas e Prevenção

A cardiotoxicidade da quimioterapia é um efeito colateral grave que pode comprometer a função cardíaca dos pacientes em tratamento oncológico. Saiba quais medicamentos causam cardiotoxicidade, como ela se manifesta e quais são as estratégias de prevenção e tratamento.
Cardiotoxicidade da Quimioterapia | Dr. Michel Chebel

O que é Cardiotoxicidade da Quimioterapia?

A cardiotoxicidade da quimioterapia é definida como qualquer dano ao coração causado pelos medicamentos quimioterápicos. Pode se manifestar de diversas formas, desde alterações assintomáticas da função cardíaca até complicações graves como insuficiência cardíaca, arritmias e infarto do miocárdio. É uma das principais preocupações na oncologia clínica moderna, especialmente com o uso crescente de imunoterapia e agentes biológicos além dos quimioterápicos tradicionais.

Cardiotoxicidade da Quimioterapia | Dr. Michel Chebel

A cardiotoxicidade da quimioterapia afeta entre 5% e 30% dos pacientes, dependendo do agente utilizado, da dose acumulada, de fatores individuais e da presença de doenças cardiovasculares prévias. Com o aumento da sobrevida dos pacientes com câncer, as complicações cardíacas se tornaram uma das principais causas de morbimortalidade não oncológica em sobreviventes de câncer, tornando o campo da Cardio-Oncologia cada vez mais relevante.

4 Mecanismos de Cardiotoxicidade da Quimioterapia

A cardiotoxicidade da quimioterapia pode ocorrer por diferentes mecanismos, dependendo do agente envolvido:

1. Disfunção Sistólica e Miocardiopatia

A disfunção sistólica — caracterizada pela redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) — é o mecanismo mais conhecido de cardiotoxicidade da quimioterapia, especialmente associado às antraciclinas (doxorrubicina, epirrubicina). Esse mecanismo pode ser do tipo I (dano miocárdico irreversível, como nas antraciclinas) ou do tipo II (disfunção reversível, como no trastuzumabe). A progressão para insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida é a complicação mais grave.

2. Isquemia e Vasospasmo

O 5-fluorouracil (5-FU) e a capecitabina são os principais agentes associados à isquemia cardíaca por mecanismo de vasospasmo coronariano. Podem causar angina, infarto do miocárdio e morte súbita. A cardiotoxicidade da quimioterapia por vasospasmo é idiossincrática (não dose-dependente) e pode ocorrer em qualquer ciclo do tratamento.

3. Arritmias

Diversos agentes quimioterápicos podem causar arritmias cardíacas. O prolongamento do intervalo QT é o mais comum e pode evoluir para arritmias ventriculares graves (torsades de pointes). Os principais agentes associados incluem arsênio, vandetanibe, sorafenibe e alguns inibidores de tirosina quinase. O monitoramento eletrocardiográfico regular é recomendado em pacientes recebendo esses medicamentos.

4. Hipertensão Arterial

Os inibidores do VEGF (fator de crescimento endotelial vascular), como o bevacizumabe, o sunitinibe e o sorafenibe, são os principais agentes associados ao desenvolvimento ou agravamento de hipertensão arterial. Esta forma de cardiotoxicidade da quimioterapia pode ocorrer precocemente, logo após o início do tratamento, e requer monitoramento pressórico frequente e tratamento anti-hipertensivo adequado.

Quais Quimioterápicos Causam Cardiotoxicidade?

Os principais grupos de medicamentos oncológicos associados à cardiotoxicidade da quimioterapia incluem:

As antraciclinas (doxorrubicina, epirrubicina, daunorrubicina) são os agentes mais cardiotóxicos, com risco de miocardiopatia dose-dependente. Quanto mais alta a dose cumulativa, maior o risco — doses acumuladas de doxorrubicina acima de 400-500 mg/m² estão associadas a taxas crescentes de insuficiência cardíaca. Os taxanos (paclitaxel, docetaxel) podem causar arritmias e bradicardia. O trastuzumabe e outros anticorpos anti-HER2 causam disfunção cardíaca reversível em 3-7% dos casos. Os inibidores de tirosina quinase (imatinibe, sorafenibe, sunitinibe) podem causar múltiplas formas de cardiotoxicidade, incluindo hipertensão, disfunção sistólica e prolongamento do QT. A terapia alvo requer monitoramento cardíaco cuidadoso.

Sintomas da Cardiotoxicidade da Quimioterapia

A cardiotoxicidade da quimioterapia pode ser assintomática nas fases iniciais, sendo detectada apenas por exames de imagem e eletrocardiograma. Quando sintomática, os principais sinais e sintomas incluem:

Dispneia (falta de ar), especialmente aos esforços ou em decúbito (ortopneia); fadiga intensa e redução da capacidade de exercício; palpitações ou sensação de batimentos irregulares; edema (inchaço) nos membros inferiores; dor torácica ou pressão no peito; tonturas ou pré-síncope. Qualquer um desses sintomas em paciente oncológico em tratamento deve ser prontamente avaliado pelo oncologista e pelo cardiologista.

Diagnóstico e Monitoramento da Cardiotoxicidade

O diagnóstico da cardiotoxicidade da quimioterapia é realizado principalmente pelo ecocardiograma, que avalia a fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE). Uma queda de 10 pontos percentuais na FEVE ou a redução abaixo de 50% é considerada cardiotoxicidade significativa pela maioria das diretrizes.

Outros exames utilizados no monitoramento incluem o eletrocardiograma (para avaliação do QT e arritmias), dosagem de troponina (biomarcador de lesão miocárdica), BNP/NT-proBNP (biomarcadores de insuficiência cardíaca) e a ressonância magnética cardíaca. De acordo com as diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) para Cardio-Oncologia, o ecocardiograma deve ser realizado antes, durante e após o tratamento com agentes cardiotóxicos.

Prevenção e Tratamento da Cardiotoxicidade da Quimioterapia

A prevenção da cardiotoxicidade da quimioterapia começa com a avaliação cardiovascular cuidadosa antes do início do tratamento oncológico. O controle dos fatores de risco cardiovasculares (hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo) reduz a vulnerabilidade cardíaca.

O dexrazoxano é o único cardioprotetor aprovado para uso em pacientes que recebem antraciclinas, reduzindo o risco de miocardiopatia. Formulações lipossomais de doxorrubicina (como a doxorrubicina lipossômica peguilada) têm menor cardiotoxicidade em comparação com a formulação convencional. Quando a cardiotoxicidade já ocorreu, o tratamento é o mesmo da insuficiência cardíaca convencional: inibidores da ECA ou antagonistas do receptor de angiotensina, betabloqueadores e outras medicações cardioprotetoras. Muitas vezes, a suspensão ou redução do agente causador é necessária.

A Importância da Cardio-Oncologia

A Cardio-Oncologia é uma subespecialidade emergente que visa otimizar o cuidado cardiovascular dos pacientes com câncer, tanto durante quanto após o tratamento. O trabalho integrado entre oncologistas e cardiologistas permite manter o tratamento oncológico eficaz enquanto se preserva ao máximo a saúde cardiovascular do paciente.

Se você está em tratamento oncológico e tem dúvidas sobre os efeitos do tratamento no coração, ou se apresentou qualquer sintoma cardiovascular durante a quimioterapia, entre em contato com o Dr. Michel Chebel. Com experiência em oncologia clínica, o Dr. Michel trabalha em conjunto com cardiologistas para garantir que a cardiotoxicidade da quimioterapia seja detectada precocemente e manejada de forma eficaz.