Síndrome Mielodisplásica: 5 Tipos, Sintomas e Tratamento

A síndrome mielodisplásica é um grupo de doenças oncológicas que afetam a medula óssea. Saiba sobre os 5 tipos, sintomas, diagnóstico e tratamento com o oncologista Dr. Michel Chebel.
Síndrome Mielodisplásica | Dr. Michel Chebel

A síndrome mielodisplásica (SMD) é um grupo de doenças oncológicas que afetam as células-tronco da medula óssea, comprometendo a produção normal de células sanguíneas. Embora muitas vezes subdiagnosticada, a SMD é uma condição de extrema relevância clínica, pois pode evoluir para leucemia mieloide aguda (LMA) em uma parcela significativa dos pacientes.

O Que é a Síndrome Mielodisplásica?

A síndrome mielodisplásica é caracterizada por alterações nas células-tronco hematopoéticas — responsáveis pela formação dos elementos do sangue —, resultando em células displásicas que não funcionam adequadamente. Isso leva à chamada citopenia, que é a redução dos glóbulos vermelhos (eritrócitos), glóbulos brancos (leucócitos) e/ou plaquetas no sangue periférico, mesmo com uma medula óssea hipercalular (com muitas células).

A SMD é mais prevalente em idosos: a média de idade ao diagnóstico é de aproximadamente 70 anos. Pode ocorrer de forma primária (sem causa identificável) ou secundária, após exposição a quimioterapia ou radioterapia, ou a toxinas como benzeno. Para compreender melhor como as doenças hematológicas são classificadas, leia sobre leucemia: tipos e tratamento oncológico.

5 Tipos de Síndrome Mielodisplásica

A classificação da síndrome mielodisplásica é feita de acordo com o sistema da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera o tipo e a quantidade de células displásicas, a presença de blastos (células imaturas) na medula óssea e alterações cromossômicas. Os principais subtipos incluem:

  • SMD com displasia unilinear: acomete apenas uma linhagem celular (eritroide, granulocítica ou megacariocítica). É o subtipo de melhor prognóstico.
  • SMD com displasia multilinear: envolve duas ou mais linhagens celulares, com risco maior de progressão.
  • SMD com excesso de blastos tipo 1 (SMD-EB-1): presença de 5% a 9% de blastos na medula óssea. Risco intermediário a alto.
  • SMD com excesso de blastos tipo 2 (SMD-EB-2): presença de 10% a 19% de blastos. Alto risco de progressão para leucemia aguda.
  • SMD com deleção 5q isolada: subtipo com alteração citogenética específica. Tem prognóstico relativamente favorável e responde bem à lenalidomida.

Sintomas da Síndrome Mielodisplásica

Os sintomas da síndrome mielodisplásica decorrem diretamente das citopenias que ela provoca. Como cada linhagem celular tem uma função específica, a redução de cada uma origina um conjunto de sintomas característicos:

Anemia (redução de hemácias)

A anemia é o achado mais comum na SMD. Manifesta-se como cansaço excessivo, fadiga, palidez cutânea, falta de ar aos esforços e tontura. Em casos graves, pode causar insuficiência cardíaca de alto débito.

Neutropenia (redução de neutrófilos)

A redução dos neutrófilos — os principais glóbulos brancos de defesa — predispõe o paciente a infecções bacterianas e fúngicas de repetição. Febre sem foco aparente é um sinal de alerta importante. Saiba mais sobre a neutropenia febril em pacientes oncológicos.

Trombocitopenia (redução de plaquetas)

A queda nas plaquetas aumenta o risco de sangramentos. O paciente pode apresentar hematomas espontâneos, sangramento gengival, epistaxe (sangramento nasal) ou sangramento após pequenos cortes.

Como é Feito o Diagnóstico?

O diagnóstico da síndrome mielodisplásica requer uma combinação de exames laboratoriais e procedimentos invasivos que avaliam diretamente a medula óssea:

Hemograma Completo

O hemograma é o primeiro exame que leva à suspeita de SMD. Ele revela citopenias em uma ou mais linhagens celulares, com morfologia anormal das células sanguíneas (displasia).

Mielograma e Biópsia de Medula Óssea

O mielograma (aspirado de medula óssea) e a biópsia de medula óssea são exames fundamentais. Permitem avaliar a celularidade da medula, o percentual de blastos, o grau de displasia nas diferentes linhagens e a presença de fibrose.

Citogenética e Biologia Molecular

O cariótipo convencional e técnicas moleculares como FISH (hibridização in situ por fluorescência) e sequenciamento genético são essenciais para identificar alterações cromossômicas e mutações que definem o subtipo da SMD, orientam o prognóstico e influenciam as decisões terapêuticas.

Marcadores Tumorais e Outros Exames

O oncologista pode solicitar ainda dosagem de ferritina, vitamina B12, ácido fólico e outros exames para excluir causas reversíveis de citopenia. Entenda como os marcadores tumorais auxiliam no diagnóstico do câncer.

Sistema de Estadiamento e Prognóstico (IPSS-R)

O estadiamento da SMD é realizado por meio do Índice Prognóstico Internacional Revisado (IPSS-R), que considera cinco variáveis: citogenética, percentual de blastos na medula, nível de hemoglobina, contagem de plaquetas e contagem de neutrófilos. O IPSS-R classifica os pacientes em cinco grupos de risco: muito baixo, baixo, intermediário, alto e muito alto, determinando o prognóstico e a urgência do tratamento. Para entender melhor como funciona o estadiamento dos cânceres em geral, leia sobre o estadiamento do câncer.

Tratamento da Síndrome Mielodisplásica

O tratamento da síndrome mielodisplásica é determinado pelo grupo de risco IPSS-R, pelas condições clínicas do paciente e pelas alterações genéticas identificadas. As principais opções incluem:

Tratamento de Suporte

Para pacientes de baixo risco, o tratamento de suporte é frequentemente a primeira abordagem. Inclui transfusões de hemácias e plaquetas, uso de eritropoietina (EPO) para estimular a produção de glóbulos vermelhos, fatores de crescimento de granulócitos (G-CSF) e quelação de ferro para tratar a sobrecarga de ferro causada pelas transfusões repetidas.

Agentes Hipometilantes

A azacitidina e a decitabina são os principais agentes hipometilantes aprovados para o tratamento da SMD de alto risco. Esses medicamentos atuam revertendo modificações epigenéticas (metilação do DNA) que suprimem genes supressores tumorais. A azacitidina, em particular, demonstrou aumentar a sobrevida e reduzir o risco de progressão para leucemia aguda em comparação ao tratamento de suporte isolado.

Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas

O transplante de medula óssea (ou de células-tronco hematopoéticas) é a única terapia potencialmente curativa para a SMD. É indicado principalmente para pacientes mais jovens com SMD de alto risco. A decisão de transplante deve considerar cuidadosamente a idade, o estado funcional do paciente, a disponibilidade de doador compatível e o risco do procedimento.

Lenalidomida

Para pacientes com SMD de baixo risco com deleção 5q, a lenalidomida é um tratamento altamente eficaz, sendo capaz de tornar os pacientes independentes de transfusões em até 70% dos casos e, em alguns, levar à remissão citogenética completa.

Imunoterapia e Terapias Alvo

Novas terapias estão sendo investigadas para a SMD, incluindo inibidores de mutações específicas (como IDH1, IDH2 e FLT3) e agentes imunoterápicos. Leia sobre como funciona a imunoterapia no câncer. A pesquisa nesse campo avança rapidamente, oferecendo novas perspectivas para pacientes com doença refratária ou recidivada. Consulte mais informações na página do INCA sobre doenças hematológicas.

Qualidade de Vida e Cuidados Paliativos

Para pacientes idosos com SMD de baixo risco ou para aqueles que não são candidatos a tratamentos mais agressivos, os cuidados de suporte e a manutenção da qualidade de vida são prioridades essenciais. O manejo adequado da anemia, o suporte nutricional e o acompanhamento psicológico fazem parte de uma abordagem oncológica integral.

Síndrome Mielodisplásica Secundária

A síndrome mielodisplásica secundária, também chamada de SMD relacionada à terapia, é aquela que se desenvolve após tratamentos com quimioterapia ou radioterapia para outros tumores. Nesse caso, os agentes alquilantes e os inibidores da topoisomerase II são os mais frequentemente associados ao desenvolvimento da SMD. O período de latência (tempo entre a exposição e o surgimento da SMD) geralmente varia de 2 a 10 anos. A síndrome mielodisplásica secundária tende a ter um prognóstico pior do que a forma primária, com alterações citogenéticas mais complexas e menor resposta aos tratamentos convencionais.

Síndrome Mielodisplásica e Progressão para Leucemia

Um dos aspectos mais preocupantes da síndrome mielodisplásica é seu potencial de progressão para leucemia mieloide aguda (LMA). A taxa de transformação leucêmica varia conforme o subtipo: pacientes com SMD de baixo risco têm risco de progressão de cerca de 5-10% em 5 anos, enquanto aqueles com SMD-EB-2 (excesso de blastos tipo 2) podem evoluir para LMA em mais de 50% dos casos. Por isso, o monitoramento regular e o acompanhamento oncológico são fundamentais para todos os pacientes com síndrome mielodisplásica. Leia também sobre as síndromes oncológicas mais importantes no tratamento do câncer.

Síndrome Mielodisplásica: Perguntas Frequentes

A síndrome mielodisplásica tem cura?

A síndrome mielodisplásica pode ser curada em alguns casos, especialmente quando o transplante de células-tronco hematopoéticas é realizado com sucesso em pacientes jovens com doadores compatíveis. Para a maioria dos pacientes — especialmente idosos com comorbidades — o objetivo do tratamento é controlar a progressão da doença, reduzir as transfusões, melhorar os sintomas e preservar a qualidade de vida.

Como diferenciar a síndrome mielodisplásica de outras anemias?

A diferenciação entre a síndrome mielodisplásica e outras causas de anemia (como deficiência de ferro, vitamina B12 ou folato) requer uma avaliação clínica e laboratorial cuidadosa. O hemograma com morfologia de lâmina revela achados displásicos característicos, e o mielograma confirma as alterações na medula óssea. A citogenética e os painéis moleculares ajudam a confirmar o diagnóstico de SMD.

A síndrome mielodisplásica é hereditária?

A maioria dos casos de síndrome mielodisplásica não é hereditária — são mutações adquiridas que ocorrem ao longo da vida nas células-tronco da medula óssea. Entretanto, existem raras síndromes genéticas predisponentes, como a anemia de Fanconi, a disqueratose congênita e certas mutações germinativas em genes como GATA2 e DDX41, que aumentam o risco de SMD. Nesses casos, o aconselhamento genético é fundamental.

Monitoramento e Seguimento do Paciente com Síndrome Mielodisplásica

O acompanhamento regular é essencial para todos os pacientes com síndrome mielodisplásica. A frequência das consultas, dos hemogramas e dos exames complementares varia conforme o grupo de risco e a estabilidade da doença. Pacientes de baixo risco estáveis podem ter seguimento a cada 3-6 meses, enquanto pacientes de alto risco ou em tratamento ativo necessitam de acompanhamento mais frequente.

Durante o seguimento, o oncologista avalia sinais de progressão (aumento dos blastos, piora das citopenias, aparecimento de novas alterações citogenéticas) e possíveis complicações do tratamento. A sobrecarga de ferro por transfusões repetidas é monitorada pela dosagem de ferritina sérica. Saiba mais sobre como funciona o seguimento e prevenção no tratamento oncológico.

Conclusão

A síndrome mielodisplásica é uma doença complexa que exige avaliação especializada por um oncologista hematologista experiente. O diagnóstico precoce, a classificação precisa do risco e a escolha do tratamento adequado são fundamentais para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes. Se você ou um familiar apresenta citopenias inexplicadas ou fadiga persistente, consulte um médico oncologista para uma avaliação completa.